Texto: Rafaela Dilly Kich e Foto: Raul Cacho Oses, via Unsplash
Quem sou eu? Quem são vocês?
Se vocês também escrevem e algum dia se interessaram por sua anatomia vaginal – simbólica ou literalmente – lhes dedico estas palavras. Companheiras: somos hortaliças não convencionais. Mas já não somos como na chegada, caladas, preparando o jantar.
Virginia Woolf questionou, em 1929: por que aos universitários identificados como sexo masculino é servido peixe dentro das universidades e nós, pessoas-mulheres, temos que nos contentar com ameixas? O que nossos cérebros criam com ameixas?
Claro, não estamos na Inglaterra. Nem – ufa! – nos Estados Unidos, onde Trump implementa uma ideologia política originária de um pensamento de 1919. Mil novecentos e dezenove. Isto segundo matéria do Estadão: em tempos de pós-verdade é sempre bom citar a fonte.
Buenas, 1919 é antes ainda do manifesto de Virginia. Virginia, Virginia, Virginia, fluxo de consciência, meu pensamento. Ah, sim. Aqui no Brasil. Comendo ameixas a gente até fica bonitinha, tipo capa da Caras ou Glamour. Mas a gente não pode sentar apáticas e cadavéricas e simplesmente esperar uma mudança, concorda?
Mulheres querem banana, feijão, “um teto todo seu” e dignidade para escrever. Este grito já vem desde Carolina Maria de Jesus. Infelizmente, ainda somos, companheiras, a carne pobre, o sexo da pobreza – em maior ou menor grau, por vezes, a depender de algo superficial, mas com implicações sociais profundas: a cor da pele.
Ora-pro-nóbis.
No Brasil, menos de 30% dos livros publicados são de autoria de pessoas identificadas como mulheres, segundo o Instituto Pró-Livro e 97% dos autores publicados são brancos. Veja bem o paradoxo: de acordo com o levantamento, 59% do público leitor brasileiro é formado por mulheres. Ou seja, as mulheres leem mais e escrevem menos.
Questiono: devido às triplas jornadas? Por falta de confiança e autoestima? Insegurança financeira? Rezar e esperar são aprendizados importantes como parte do caminho, mas não bastam. Especialmente em um contexto de apocalipse climático iminente, como nos alerta a escritora Eliane Brum.
Pessoas identificadas como homens no poder vão destruir o mundo.
Nem sempre as circunstâncias tornam a escrita fácil para nós. Escrever o que acabei de escrever não foi fácil. Dizê-lo é quase impossível.
No entanto, é justamente por haver coisas que não podemos compartilhar com ninguém por meio da fala que é preciso escrever. Todos os dias. Parafraseando Ernaux: escrever para que as coisas encontrem um termo, não sejam apenas vividas.
É preciso escrever para que sejamos também corpo-escrita – e inscritas na história. Escrevamos, portanto, pelas desigualdades enfrentadas pelo nosso sexo e, como diria Lispector, “apesar de”.
*Exercício de texto criado a partir da música Ora-Pro-Nóbis, disco Tropicália ou Panis et Circenses. Proposta apresentada pela Dramaturga Amanda Carneiro, na turma de Dramaturgia – Módulo Azul, na linha de estudo de Dramaturgia da Escola SP de Teatro.