Permitir a expansão da poesia: Fase 1 do Projeto “O Nascer da Poesia”

Na fotografia, da direita para esquerda: Fernando Bertuzzi (Diretor-Geral), Mônica Reichert (Orientadora Educacional), Bruna dos Santos Cândido (Vice-Diretora), Adriana Bergold (Coordenadora Pedagógica) e Rafaela Dilly Kich (Artista Proponente).

Na fotografia, da direita para esquerda: Fernando Bertuzzi (Diretor-Geral), Mônica Reichert (Orientadora Educacional), Bruna dos Santos Cândido (Vice-Diretora), Adriana Bergold (Coordenadora Pedagógica) e Rafaela Dilly Kich (Artista Proponente).

Créditos da foto: Iván Andrés Fornos Angues

No dia 28 de fevereiro de 2025, tive a alegria de me reunir com a Equipe Diretiva da Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Arnaldo Grin, representada na fotografia por seu corpo diretivo. A Escola será “palco” para a implementação de meu projeto “O Nascer da Poesia: Pequenos Poemas, Grandes Ideias“, viabilizado por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.

Pude observar um pouco da rotina dos alunos e alunas, compreender melhor os desafios apresentados pelo seu contexto social e, claro, observar também as belezas cultivadas neste espaço escolar tão precioso e acolhedor (horta, jardim, artes nos muros, entre outros elementos).

Ainda, em momentos compartilhados na sala dos professores, senti abertura, receptividade e acolhimento. No decorrer da realização de minha proposta pedagógica e poética, penso que o maior desafio será contemplar as individualidades de cada estudante em seu percurso de ensino – considerando uma metodologia contemporânea, os diferentes níveis de aprendizado e os interesses particulares de cada um.

Mesclando atividades como jogos (oriundos do Teatro, sobretudo performático), tarefas expositivas e intervenções poéticas com outros convidados e convidadas especiais, creio que faremos um belo trabalho. Este consistirá, sobretudo, em oferecer mecanismos estimulantes para viabilizar a expressão da poesia que já vive em cada uma e cada um deles.

Quer saber mais sobre este e outros projetos culturais que venho implementando? Inscreva-se na minha Newsletter via Substack!

Tem algum comentário a compartilhar? Sinta-se à vontade aqui embaixo ou pelo e-mail rafaela.kich@gmail.com 🙂

ORA-PRO-NÓBIS – Manifesto 2025

fundo branco com pratos coloridos decorados, em tons de branco e dourado e desenhos de linhas finas - semelhantes a mandalas

Texto: Rafaela Dilly Kich e Foto: Raul Cacho Oses, via Unsplash

Quem sou eu? Quem são vocês?

Se vocês também escrevem e algum dia se interessaram por sua anatomia vaginal – simbólica ou literalmente – lhes dedico estas palavras. Companheiras: somos hortaliças não convencionais. Mas já não somos como na chegada, caladas, preparando o jantar. 

Virginia Woolf questionou, em 1929: por que aos universitários identificados como sexo masculino é servido peixe dentro das universidades e nós, pessoas-mulheres, temos que nos contentar com ameixas? O que nossos cérebros criam com ameixas?

Claro, não estamos na Inglaterra. Nem – ufa! – nos Estados Unidos, onde Trump implementa uma ideologia política originária de um pensamento de 1919. Mil novecentos e dezenove. Isto segundo matéria do Estadão: em tempos de pós-verdade é sempre bom citar a fonte.

Buenas, 1919 é antes ainda do manifesto de Virginia. Virginia, Virginia, Virginia, fluxo de consciência, meu pensamento. Ah, sim. Aqui no Brasil. Comendo ameixas a gente até fica bonitinha, tipo capa da Caras ou Glamour. Mas a gente não pode sentar apáticas e cadavéricas e simplesmente esperar uma mudança, concorda?

Mulheres querem banana, feijão, “um teto todo seu” e dignidade para escrever. Este grito já vem desde Carolina Maria de Jesus. Infelizmente, ainda somos, companheiras, a carne pobre, o sexo da pobreza – em maior ou menor grau, por vezes, a depender de algo superficial, mas com implicações sociais profundas: a cor da pele.

Ora-pro-nóbis. 

No Brasil, menos de 30% dos livros publicados são de autoria de pessoas identificadas como mulheres, segundo o Instituto Pró-Livro e 97% dos autores publicados são brancos. Veja bem o paradoxo: de acordo com o levantamento, 59% do público leitor brasileiro é formado por mulheres. Ou seja, as mulheres leem mais e escrevem menos. 

Questiono: devido às triplas jornadas? Por falta de confiança e autoestima? Insegurança financeira? Rezar e esperar são aprendizados importantes como parte do caminho, mas não bastam. Especialmente em um contexto de apocalipse climático iminente, como nos alerta a escritora Eliane Brum

Pessoas identificadas como homens no poder vão destruir o mundo. 

Nem sempre as circunstâncias tornam a escrita fácil para nós. Escrever o que acabei de escrever não foi fácil. Dizê-lo é quase impossível.

No entanto, é justamente por haver coisas que não podemos compartilhar com ninguém por meio da fala que é preciso escrever. Todos os dias. Parafraseando Ernaux: escrever para que as coisas encontrem um termo, não sejam apenas vividas.

É preciso escrever para que sejamos também corpo-escrita – e inscritas na história. Escrevamos, portanto, pelas desigualdades enfrentadas pelo nosso sexo e, como diria Lispector, “apesar de”. 

*Exercício de texto criado a partir da música Ora-Pro-Nóbis, disco Tropicália ou Panis et Circenses. Proposta apresentada pela Dramaturga Amanda Carneiro, na turma de Dramaturgia – Módulo Azul, na linha de estudo de Dramaturgia da Escola SP de Teatro.

“O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”

Pessoa segurando na mão um livro de poemas.

“Nada conterá a primavera” – Francisco, el Hombre

Foto de Valentin Salja, na Unsplash

É possível combater violência com poesia? Acredito que sim. Mas não se pensarmos nesta estritamente em um sentido lírico, métrico. Aqui, referencio a possibilidade da poesia em perspectiva mais ampla. A poesia que acolhe nossa vida por meio das canções, da Natureza e das relações diárias tocadas pelo afeto. 

Escrevo este texto, justamente, porque desejo compartilhar uma nova iniciativa no ano de 2025: o início do meu projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Arnaldo Grin, viabilizada por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.

A ideia surgiu a partir de uma lembrança do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. A proposta é, precisamente, trabalhar distintos aspectos da poesia em sala de aula, com estudantes dos Anos Finais, em uma escola pública fortemente afetada pelas enchentes de maio de 2024. Sua implementação se justifica, justamente, pelo objetivo de fortalecer a autoestima do público discente e combater a violência.

A violência só gera mais violência. Prova disto é o aumento no número de suicídios entre jovens e o número crescente de ataques com armas de fogo em escolas em anos recentes, como é possível encontrar facilmente comprovação estatística baseada em dados oficiais através de uma rápida pesquisa no Google.

Como acredito, a poesia é o que poderá nos salvar dos afogamentos em um contexto de sociedade violenta e marcada por diferentes camadas de opressão. “Educar para a poesia” é também uma maneira de combater uma lógica armamentista de solução de conflitos baseada em violência. 

A poesia é uma esperança. Mas não uma esperança que nos coloca em estado de alienação e apatia, como nos alerta sabiamente a escritora e jornalista Eliane Brum neste artigo, originalmente escrito para o jornal El País. 

O propósito deste projeto é tornar a poesia tangível, sensibilizar o olhar das e dos jovens para percebê-la e iluminar em seus corações a perspectiva de que, a partir de seus sentimentos e suas ideias, também podem criá-la. 

Por isso, te convido a acompanhar aqui no blog mais dos bastidores deste projeto que estou super contente em iniciar agora.

Com amor,

Rafa

6 leituras de 2024: dicas para você se inspirar

Fotografia: Kimberly Farmer, via Unsplash

Mais um fim de ano se aproxima e me peguei pensando: quais foram as leituras de 2024 que me fizeram evoluir e posso compartilhar como dicas para você se inspirar? A partir da questão, cresceu o desejo de compartilhar alguns livros que tocaram meu coração neste período. 

Claro que é complexo ser seletiva, mas a proposta aqui é apresentar obras que vão desde a literatura infantil, passando pela poesia e romance, caminhando também ao lado do erotismo.

Agora, sem mais delongas, espie algumas das minhas 6 leituras de 2024 que recomendo a você: 

1. Meu Crespo é de Rainha, de bell hooks

Ao ler bell hooks, descobri que cabelo não é só estética. Diz respeito à identidade e à autopercepção. Sim: a forma como nos relacionamos com ele também é política. E, no que diz respeito às crianças negras, torna-se ainda mais importante enaltecer a beleza dos fios crespos e encaracolados em suas mais distintas formas. 

É isto que, de uma forma simples e poética, bell hooks nos oferece neste livro colorido, fofo e cheio de personalidade, ilustrado por chris raschka. É recomendado para adultos e crianças a partir dos 3 anos (vale muito uma leitura em família!).

Compre o livro neste link.

2. Amora, de Natalia Borges Polesso

Amores, amoras, encontros, desencontros, desejos correspondidos ou não. Este livro de Natalia Borges Polesso traz contos que convidam às lágrimas: sejam de tristeza e/ou de alegria. Meu pai, Etílio Tuiscon Kich, costuma dizer que “todas as histórias são histórias de amor”. Gosto desta frase e esta obra, para mim, ilustra um pouco tal percepção.

Os contos da escritora trazem um toque de afago e fuga dos clichês ao passear por histórias que poderiam muito bem ser a de alguém conhecido seu – se não as suas próprias. Não por acaso, a obra já venceu o Prêmio Jabuti e foi traduzida e publicada em vários países. 

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3. Eu Versos Eu, de Paula Taitelbaum

Sou um pouco suspeita ao falar da Paula, por ser uma poeta, editora e escritora que tanto admiro e, inclusive, escreveu um comentário na contracapa do meu livro de poesias mais recentemente lançado, o “Fragmentos: poemas de pandemia”. Mas bem…que posso dizer? Poesia para mim é, entre muitas coisas, sinônimo de brincadeira com palavras.

E é isto que Paula faz neste livro que foi o seu de estreia, apresentando com coragem nuances da alma de uma mulher que sente, pensa, goza e quer muito da vida. Me inspira.

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4. Paula, de Isabel Allende

Não sou mãe (só de pet! hehe), então é complexo imaginar a dor de ver uma filha muito doente. No entanto, esta foi uma situação real da vida da escritora chilena Isabel Allende – e, como é típico das escritoras cujo talento transcende as palavras de seu livro – ela consegue transmitir tal sensação devastadora no livro “Paula”, um de seus maiores clássicos.

A obra não foi planejada, foi mesmo o resultado de uma sugestão da editora de Isabel para que ela atravessasse o difícil período em que esteve com a filha entubada no hospital lidando com a dor a partir das palavras. Ao dialogar e retratar fatos sobre sua infância e sua vida a ela, Allende acaba por rememorar também fatos importantes acerca da história do Chile, como a ditadura de Pinochet, no golpe militar de 1973.

Aqui, há um exemplo nítido do que Conceição Evaristo chama de escrevivência. Um livro para chorar, aprender, crescer e lembrar de valorizar o divino presente que é a saúde. Não por acaso ele consagrou Isabel como uma das maiores escritoras latino-americanas. 

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5. O Relatório Hite: Um Profundo Estudo sobre a Sexualidade Feminina, de Shere Hite

Mulher: você goza? Como goza? Quanto goza? Como gosta? Shere Hite foi uma mulher visionária, a partir de um questionário, ao entrevistar dezenas de mulheres acerca de sua sexualidade – algo que, por vieses religiosos e políticos, ainda hoje para algumas pessoas é tabu.

Neste livro, apresenta perguntas e respostas sinceras sobre temas que permeiam o erotismo e a vida sexual feminina, trazendo à tona temas como orgasmo, masturbação e relacionamentos homo e heterossexuais. 

Sem delongas, recomendo a leitura para todas as irmãs que procuram assumir o prazer em suas vidas com menos culpa e vergonha, mais amor-próprio e cuidado consigo mesmas. 

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6. Quintais, de Geruza Zelnys

Traumas, abusos, dor, violência. Beleza, êxtase, embalo, fruto. A vida tem disto tudo. É o que nos lembra a escritora Geruza Zelnys nos poemas do livro “Quintais”, obra que fortemente recomendo para quem tem coragem de deixar a poesia entrar visceralmente no corpo.

Como diz a também poeta Matilde Campilho, “a poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”. O que Geruza, minha companheira de editora Patuá*, oferece aqui é um respiro, um escape de angústia, uma possibilidade de seguir pelas palavras – como é próprio da poesia. 

Compre o livro aqui neste link.

*Sim, eu também publiquei por esta editora um livro de poemas, chamado “A Parte de Nós Que Canta”. Você pode comprar aqui ou me enviar um e-mail no endereço rafaela.kich@gmail.com para eu te encaminhar uma cópia autografada. Envio para todo Brasil e exterior. 

E você, já leu algum destes livros? Qual foi o que mais gostou? Qual foi a sua leitura mais marcante de 2024? Fique à vontade para me contar aqui nos comentários.

Me despeço com votos de que 2025 nos brinde com amor, saúde, paz, prosperidade e, claro, muitas leituras estimulantes para expandir cada vez mais nossa percepção de mundo. Continue acompanhando os textos do blog nesta nova etapa.

Vamos ter muitas e muitas novidades. 🙂

*ps: os livros contêm meu link de Afiliada da Amazon. Ao comprar através deles, eu recebo uma comissão que ajuda a manter este blog, mas você não paga nada a mais por isso. Muito obrigada!

Série de Vídeos “Ivoti É”: Uma Cidade em Rostos

Foi mobilizada pelo Edital da Lei Paulo Gustavo que decidi, em 2024 implementar o projeto “Ivoti É…” em meu município, uma proposta inicial de 3 vídeos de 1 minuto junto de moradores e moradoras da cidade. Penso que a arte adentra camadas, toca subjetividades, mobiliza, aproxima. Enquanto multiartista, acredito que ela salva vidas.

A inspiração surgiu ao contemplar um trabalho Audiovisual da artista Vera Chaves Barcellos, denominado “Mulheres pelo Mundo” – ainda disponível no YouTube. Nele, a artista documenta a face de mulheres ao redor do mundo com distintos sotaques, formas de vestir e, claro, de várias nacionalidades. 

Percebendo uma imensa transformação também no cenário do município onde habito, surgiu a ideia de traçar proposta semelhante: elaborar, em vídeos curtos, uma montagem com moradores e moradoras da cidade falando seus nomes, de onde vêm e há quanto tempo estão aqui. 

Naturalmente, para isto a ideia foi percorrer distintos bairros da cidade e conversar com pessoas de variadas idades: crianças, pré-adolescentes, adultos e idosos. Escutar e valorizar as linguagens, as histórias, os caminhos que cada um percorreu até aqui: tanto os que chegaram há pouco, quanto aqueles que habitam esta terra há gerações.

Entre os depoimentos, portanto, estão tanto os de pessoas que foram nascidas e criadas na cidade de Ivoti – residindo até hoje por aqui – quanto de moradoras e moradores que estão há menos de um ano na cidade. Há, a título de ilustração, depoentes que vieram de Pernambuco, Amazonas e Ceará. 

A ideia parte do pressuposto de que dizer seu nome e partilhar sua história é uma forma de dignificar a existência de alguém. Esta é a força mobilizadora e transformadora da arte: os vídeos trazem simplesmente nomes e locais de origem, mas a conexão nos bastidores, os percursos vividos que me foram relatados, creio que fortaleceram os depoentes e minha autoestima enquanto artista e produtora cultural.

No decorrer do processo, transformações estruturais acontecem. Mudanças de percurso. Houve, ainda, um período de calamidade pública em meio às enchentes de maio de 2024.

Mas assim é: quando assumimos um projeto, existe um compromisso em finalizá-lo. E assim o fiz, da melhor maneira que pude. Trabalhar no Brasil com Audiovisual, em orçamentos que às vezes são bastante apertados, ainda é muito desafiador. Mas seguiremos.

Vejamos o que o futuro reserva. Os vídeos produzidos podem ser acessados aqui:

Deixo um agradecimento especial a tod@s que comigo compartilharam as suas histórias.

bell hooks e o amor como a maior prática política

Escritora bell hooks em palestra no ano de 2009.

Fotografia por Cmongirl – Domínio público

Sinto-me no dever de escrever um pouco sobre a última obra em que mergulhei assinada por bell hooks: “A Busca das Mulheres Pelo Amor” (Editora Elefante. 2024). Afinal, se pensar sobre o amor pode até soar piegas, talvez em uma nova era Trumpiana este seja o momento de reconsiderar a questão. 

Desde o início, me fisgou o quanto a explanação de hooks neste livro é próxima da realidade, da Cultura. Exemplifico: no decorrer da leitura, encontrava respostas sobre sentimentos associados às relações que estava vivendo naquele exato momento. (obrigada, bell, você me deu a mão!).

Ou seja: a percepção de hooks, a meu ver, parte de uma perspectiva profundamente espiritual. Mas sem jamais perder a percepção do Real. Em outros termos, a autora nos convida a pensarmos sobre o amor sem jamais deslocá-lo dos desafios impostos pelo racismo, a heteronormatividade e o patriarcado.

Sobretudo, talvez, algumas reflexões que tocaram uma parte muito íntima e verdadeira de mim foram aquelas que salientaram o amor como uma prática política capaz de dissolver as estruturas bélicas, opressivas e violentas da Cultura Ocidental e da vertente neoliberal. 

Afinal, amar não tem a ver com dinheiro. Talvez, em parte pelo aspecto da sobrevivência, pela perspectiva do zelo, até sim. Mas o excesso não garante amor. Amor de verdade demanda muito mais. Apoio. Incentivo. Afeto. 

Amemos, portanto! Esta força, embora não aparente, pode ser mais forte que as armas. É dela que, diante dos desafios – climáticos, sobretudo – precisamos agora mais do que nunca, novamente. 

  • Um fato divertido:

Instigada, parei ao abrir o livro no nome da tradutora: Julia Dantas. Que alegria! Uma autora conterrânea e extremamente talentosa ter tornado possível o acesso às palavras da bell hooks. 🙂 e, graças à 70ª Feira do Livro de Porto Alegre, ainda foi possível receber este autógrafo/presente. Obrigada, Julia, pela acolhida carinhosa. Que nossos caminhos possam se cruzar de novo em breve.

Migrantes Somos Todes Nós – Poema em Homenagem aos 200 Anos da Imigração Alemã no Brasil

Autoria: Rafaela Dilly Kich

Tradução para o Alemão: Adriana Bühler Stephani

O imigrante é um caminhante 

Segue sempre em frente, viajante!

Veste-se? De Fé, Força, Esperança…

Persiste em busca da Herança

De uma Terra a chamar de Lar

Para junto dos amigos prosperar

O que nutre o sonho humano?

Este que gera movimento?

Em 1824, da Guerra o desalento

Em 2024, da Tempestade o tormento

A qualquer ano, a qualquer tempo

Existe um Sussurro do Vento que diz:

Migrantes Somos Todes Nós.

Versão Traduzida para a Língua Alemã:

Migrant ist ein Wanderer 

Immer vorwärts, Reisender!

Verkleidet er sich? In Glauben, Kraft, Hoffnung…

Er beharrt auf der Suche nach dem Erbe 

Eines Landes, das er seine Heimat nennen kann

Um mit Freunden zu gedeihen

Was nährt den menschlichen Traum?

Dieser Traum, der Bewegung erzeugt?

1824, vom Krieg die Entmutigung

2024, vom Sturm die Qual

In irgendeinem Jahr, zu jeder Zeit

Gibt es ein Flüstern im Wind, das besagt:

Migranten sind wir alle.

O Nascer da Poesia: percepções a partir de uma oficina de escrita com jovens da Rede Pública

Imagem em banner cor de rosa, com 4 fotos na qual estão presentes a escritora Rafaela Dilly Kich e estudantes das turmas de 8º e 9º ano A e B, em setembro de 2024, na oficina de escrita e conversa denominada: O Nascer da Poesia

Inicio este texto com o estilo literário pulsante de Édouard Louis marcado em mim. Busco um referencial em sua fluência textual autobiográfica para relatar uma experiência pessoal e pontual: a vivência oportunizada por meio de fomento à Cultura (Lei Paulo Gustavo) de ministrar uma oficina de escrita para jovens dos 8ºs e 9ºs anos da Rede Pública de Ensino, especificamente na Escola Concórdia.

Pertinente, talvez, apresentar meu lugar de fala. Vivi, nestes últimos dias, um processo experimental que remete ao de Louis, também talvez ao da francesa Annie Ernaux, um pouco em reverso: sempre estudei em escolas privadas, do Ensino Básico ao Superior. Foi justamente a trajetória artística que me conduziu ao desejo de realizar trabalhos na esfera pública.

Sou mulher. Branca. Uma pessoa de 30 anos (investigando nuances não-binárias), mas com infraestrutura e amparo familiar. Alguém que está ministrando uma oficina porque escreveu livros. Porque foi capaz de redigir um projeto artístico e ser contemplada para ministrar atividade associada à Feira do Livro da cidade. Alguém que tem certa liberdade de ir além da didática/metodologia imposta pela rotina escolar.

Há, nisto, uma inevitável distância que me separa das e dos jovens com quem dialogo. Mas existe, também, este aspecto sempre transformador da literatura: a possibilidade, como disse Ernaux, de compartilhar algo do coletivo. O que é coletivo? A percepção dos sentimentos que, de algum modo, atravessam a todes nós. 

É a partir deste ponto que busquei me conectar com eles, lendo alguns poemas meus; na sequência, partilhando também escritos de Annie Ernaux e Virginia Woolf. Referenciei o quanto estas autoras utilizaram seus sentimentos para conduzir seus projetos literários, – no caso da primeira, sobretudo, a pauta da própria vida como investigação do sentir.

Ernaux, afinal, tem um livro intitulado “A Vergonha”. Gostaria, enquanto docente convidada, de assumir uma postura não-hierárquica, mas capaz de impor respeito. No decorrer da oficina, aliás, senti vergonha em dados momentos – não sabia se estava usando as palavras certas. Se eles compreendiam todas as minhas palavras, minha linguagem. Se todos sequer tinham alguma fluência para escrever.

Não queria soar arrogante, mas também não queria diminuir o vocabulário, pois a própria possibilidade de expansão de um vocabulário é uma possibilidade de expansão de si mesmo, de seu universo. Mas não gostaria, sobretudo, que se sentissem “burros” – adjetivo que já escutei em outras oficinas com certa frequência por parte dos jovens – diante de alguns exercícios propostos.

Percebi, notavelmente, que algumas meninas se mostravam retraídas diante de uma atividade mais autoral, lúdica. Os meninos, em sua maioria, diante da dúvida traziam seus questionamentos.

As meninas pareciam, em sua maioria, preocupadas em “não fazer errado”: o cuidado com a caligrafia, o preciosismo. Parecia difícil para elas lidar com a possibilidade de uma escrita mais livre. Claro: a postura de algumas não permite generalizar este como um comportamento típico somente das meninas. No entanto, é algo que me chamou atenção.

Propus como alternativa o desenho e a pintura, caso alguém não se sentisse confortável em fazer alguma dinâmica escrita proposta para acessar seus sentimentos. Estas atividades envolviam, sobretudo, possibilidades de autopercepção a partir da escrita. Por exemplo, solicitei que as/os jovens escrevessem livremente suas próprias definições do que é amar, ser escutado, mudar…

A didática é algo desafiador. A posição da docência exige dinamismo e um (re)pensar constante de si e do outro. Complexo achar um tom que não faça com que os/as jovens se sintam incapazes; mas também eles parecem, por vezes, necessitar de orientação mais aprofundada – e repetida – para criar algo do zero.

Também é uma posição que exige um aprofundamento constante da empatia, ao mesmo tempo em que impõe enorme seriedade. Mesmo nos detalhes, na forma como as atividades são elucidadas e propostas há noções importantes sendo transmitidas acerca de olhares sobre a vida: a relevância do diálogo democrático nas atividades propostas em grupo para tomada de decisões, o respeito a tod@s colegas.

Neste lugar enquanto escritora assumindo uma postura docente, em dado momento concluo que é preciso aceitar que não existe perfeição. Seguir, seguir, seguir. Fazer e aperfeiçoar a partir do fazer.

Propus, a partir de exemplificações dos fluxos de consciência de Virginia também a atividade de escrita de uma carta. Uma carta a uma mulher que cada um deles admira. A ideia veio há um tempo atrás, a partir de diálogo com meu amigo João Gonçalves. Lembrei às/os jovens que, em cartas, costumamos endereçar, assinar a data. É o tipo de lembrança  que, em geral, se guarda com carinho.

Ao fim das atividades com uma das turmas, uma jovem – Bianca – me entregou uma carta. Ela escrevera para mim. Fiquei fascinada pelo seu uso das palavras, pensei o quanto uma jovem adolescente carrega em termos de carga de sentimentos. O quanto a expressão é primordial e delicada.

O quanto, em uma era extremamente digital, é preciso oferecer aos jovens e às jovens a permissão e os instrumentos para que descubram e acolham sua caligrafia e para que entendam que, junto do conhecimento prático, a literatura pode oferecer um lugar também de amparo e refúgio. Acolhimento. É isto a que ela se propõe em sua mais elementar – e bela – função.

  • Deixo em registro agradecimento à Coordenadora Katia e Professora Ana Cláudia Gregorio, que me acolheram na escola, bem como uma nota de admiração pelo trabalho que realizam diariamente no cuidado com o futuro de cada uma e cada um destes jovens. Também à Secretaria de Cultura do município de Ivoti, gestão 2024, pelo apoio na implementação do Projeto.

Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: dor transmutada em poesia (Resenha – Leituras Obrigatórias UFRGS 2024)

Em “Ponciá Vicêncio”, livro que integra a lista de leituras obrigatórias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2024, Conceição Evaristo demonstra que, se é das sensibilidades simples que nascem as mais belas literaturas, não é por acaso seu lugar consagrado entre as maiores autoras deste país.

Nele, conhecemos a história de uma ex-escrava e seus encontros e desencontros consigo mesma e sua família. A obra escancara a dor – nunca redimida pela branquitude – do período da escravidão brasileira, mas com frases de pura poesia que fazem da narrativa de uma história brutal também um exercício de leitura delicada. Há poética apesar da brutalidade, afinal. Também, que se há de fazer diante do absurdo já ocorrido?

Ponciá é herdeira da escravidão e todas as suas violências físicas e psíquicas. Violências que internalizam marcas próprias, somadas àquelas da pobreza, perpetuando-as. Passeando pelo campo da Psicanálise – intencionalmente ou não – Conceição nos permite aqui contemplar em uma personagem os efeitos da profundidade de um trauma.

Vemos, em Ponciá, os efeitos traumáticos de vivências a partir de contextos históricos/culturais (escravidão, submissão) e pessoais (violência doméstica), sempre correlacionados. Nossa personagem, a partir destas agressões conjuntas, “se apaga de si mesma”, contempla vazios, permanece horas em silêncio.

Seu irmão, afastado do campo, na cidade sonha em ser soldado – fardado, forjando, assim, uma identidade que lhe garanta respeito. É ao tecer esta narrativa de tramas que Evaristo nos brinda com “frases-abraço”, como: 

“Com o zelo da arte (…) buscava significar as ausências e mutilações, que também conformam um corpo”;

“A vida era um tempo misturado do antes-agora-depois-e-do-depois-ainda”;

“O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento”;

Em “Ponciá Vicêncio”, Conceição Evaristo demonstra que a vida é, de fato, como cantou Vinicius de Moraes, a arte do encontro. Muito embora haja tanto desencontro pela vida.

E tu? Já leste este livro? O que achou da obra? Aproveita para me contar aqui nos comentários. 🙂

A Escrita como Faca: Pulsão, Memória, Erotismo em Annie Ernaux

Foto: Escritora Annie Ernaux - de camiseta azul e anel com pedra azul, fala com microfone e fones de ouvido, em painel de FLIP 2022;

Foto: YouTube/Reprodução

A Escrita como Faca e Outros Textos” (Editora Fósforo, 2023) é uma obra que conduz a leitora e o leitor a reflexões sobre memória, afeto, e, sobretudo, os “porquês” da escrita. 

Em um formato bastante experimental – que mistura trechos de cartas, diários e entrevistas da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux, – o livro convoca a pensar a escrita e a leitura enquanto processos e, indissociavelmente, como atos políticos (ainda que apartidários).

Annie Ernaux faz, aqui, um relato sincero acerca da escrita quase como “obsessão”. Como ela se dá, a partir de uma necessidade muito íntima e profunda. Que espaços encontra em seu dia a dia. 

Indo além, generosa como é, Ernaux revela também um pouco dos impulsos que a levam a redigir suas palavras – fios de memória que se costuram, fotos que despertam sentimentos pedindo por elaboração. Uma necessidade, agora parafraseando-a, de dar um sentido ao tempo, às coisas.

Pela escrita, a francesa parece querer fazer com que os acontecimentos não tenham um fim em si mesmos, mas que adquiram significado. Ernaux parece compreender, enfim, que fazer literatura, por meio da sintaxe, do uso das palavras e da escolha dos fatos a retratar é, em si, ato de libertação. E/ou de “vingar sua raça”, para citar termos que ela mesma coloca.

Seja como faca ou gozo/pulsão, intencionalmente ou simplesmente a partir de uma honestidade comovente, o fato é que na escrita de Annie nada é gratuito. Seu tecer das palavras é história, antropologia, psicologia, memória. Arte, em si. Política, portanto.

Recomendo a leitura.