Na fotografia, da direita para esquerda: Fernando Bertuzzi (Diretor-Geral), Mônica Reichert (Orientadora Educacional), Bruna dos Santos Cândido (Vice-Diretora), Adriana Bergold (Coordenadora Pedagógica) e Rafaela Dilly Kich(Artista Proponente).
Créditos da foto: Iván Andrés Fornos Angues
No dia 28 de fevereiro de 2025, tive a alegria de me reunir com a Equipe Diretiva da Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Arnaldo Grin, representada na fotografia por seu corpo diretivo. A Escola será “palco” para a implementação de meu projeto “O Nascer da Poesia: Pequenos Poemas, Grandes Ideias“, viabilizado por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.
Pude observar um pouco da rotina dos alunos e alunas, compreender melhor os desafios apresentados pelo seu contexto social e, claro, observar também as belezas cultivadas neste espaço escolar tão precioso e acolhedor (horta, jardim, artes nos muros, entre outros elementos).
Ainda, em momentos compartilhados na sala dos professores, senti abertura, receptividade e acolhimento. No decorrer da realização de minha proposta pedagógica e poética, penso que o maior desafio será contemplar as individualidades de cada estudante em seu percurso de ensino – considerando uma metodologia contemporânea, os diferentes níveis de aprendizado e os interesses particulares de cada um.
Mesclando atividades como jogos (oriundos do Teatro, sobretudo performático), tarefas expositivas e intervenções poéticas com outros convidados e convidadas especiais, creio que faremos um belo trabalho. Este consistirá, sobretudo, em oferecer mecanismos estimulantes para viabilizar a expressão da poesia que já vive em cada uma e cada um deles.
Quer saber mais sobre este e outros projetos culturais que venho implementando? Inscreva-se na minha Newsletter via Substack!
Tem algum comentário a compartilhar? Sinta-se à vontade aqui embaixo ou pelo e-mail rafaela.kich@gmail.com 🙂
É possível combater violência com poesia? Acredito que sim. Mas não se pensarmos nesta estritamente em um sentido lírico, métrico. Aqui, referencio a possibilidade da poesia em perspectiva mais ampla. A poesia que acolhe nossa vida por meio das canções, da Natureza e das relações diárias tocadas pelo afeto.
Escrevo este texto, justamente, porque desejo compartilhar uma nova iniciativa no ano de 2025: o início do meu projeto “O Nascer da Poesia: pequenos poemas, grandes ideias”, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Arnaldo Grin, viabilizada por intermédio de financiamento do Estado do Rio Grande do Sul e apoio do Programa RS Seguro COMunidade.
A ideia surgiu a partir de uma lembrança do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. A proposta é, precisamente, trabalhar distintos aspectos da poesia em sala de aula, com estudantes dos Anos Finais, em uma escola pública fortemente afetada pelas enchentes de maio de 2024. Sua implementação se justifica, justamente, pelo objetivo de fortalecer a autoestima do público discente e combater a violência.
A violência só gera mais violência. Prova disto é o aumento no número de suicídios entre jovens e o número crescente de ataques com armas de fogo em escolas em anos recentes, como é possível encontrar facilmente comprovação estatística baseada em dados oficiais através de uma rápida pesquisa no Google.
Como acredito, a poesia é o que poderá nos salvar dos afogamentos em um contexto de sociedade violenta e marcada por diferentes camadas de opressão. “Educar para a poesia” é também uma maneira de combater uma lógica armamentista de solução de conflitos baseada em violência.
A poesia é uma esperança. Mas não uma esperança que nos coloca em estado de alienação e apatia, como nos alerta sabiamente a escritora e jornalista Eliane Brum neste artigo, originalmente escrito para o jornal El País.
O propósito deste projeto é tornar a poesia tangível, sensibilizar o olhar das e dos jovens para percebê-la e iluminar em seus corações a perspectiva de que, a partir de seus sentimentos e suas ideias, também podem criá-la.
Por isso, te convido a acompanhar aqui no blog mais dos bastidores deste projeto que estou super contente em iniciar agora.
Inicio este texto com o estilo literário pulsante de Édouard Louis marcado em mim. Busco um referencial em sua fluência textual autobiográfica para relatar uma experiência pessoal e pontual: a vivência oportunizada por meio de fomento à Cultura (Lei Paulo Gustavo) de ministrar uma oficina de escrita para jovens dos 8ºs e 9ºs anos da Rede Pública de Ensino, especificamente na Escola Concórdia.
Pertinente, talvez, apresentar meu lugar de fala. Vivi, nestes últimos dias, um processo experimental que remete ao de Louis, também talvez ao da francesa Annie Ernaux, um pouco em reverso: sempre estudei em escolas privadas, do Ensino Básico ao Superior. Foi justamente a trajetória artística que me conduziu ao desejo de realizar trabalhos na esfera pública.
Sou mulher. Branca. Uma pessoa de 30 anos (investigando nuances não-binárias), mas com infraestrutura e amparo familiar. Alguém que está ministrando uma oficina porque escreveu livros. Porque foi capaz de redigir um projeto artístico e ser contemplada para ministrar atividade associada à Feira do Livro da cidade. Alguém que tem certa liberdade de ir além da didática/metodologia imposta pela rotina escolar.
Há, nisto, uma inevitável distância que me separa das e dos jovens com quem dialogo. Mas existe, também, este aspecto sempre transformador da literatura: a possibilidade, como disse Ernaux, de compartilhar algo do coletivo. O que é coletivo? A percepção dos sentimentos que, de algum modo, atravessam a todes nós.
É a partir deste ponto que busquei me conectar com eles, lendo alguns poemas meus; na sequência, partilhando também escritos de Annie Ernaux e Virginia Woolf. Referenciei o quanto estas autoras utilizaram seus sentimentos para conduzir seus projetos literários, – no caso da primeira, sobretudo, a pauta da própria vida como investigação do sentir.
Ernaux, afinal, tem um livro intitulado “A Vergonha”. Gostaria, enquanto docente convidada, de assumir uma postura não-hierárquica, mas capaz de impor respeito. No decorrer da oficina, aliás, senti vergonha em dados momentos – não sabia se estava usando as palavras certas. Se eles compreendiam todas as minhas palavras, minha linguagem. Se todos sequer tinham alguma fluência para escrever.
Não queria soar arrogante, mas também não queria diminuir o vocabulário, pois a própria possibilidade de expansão de um vocabulário é uma possibilidade de expansão de si mesmo, de seu universo. Mas não gostaria, sobretudo, que se sentissem “burros” – adjetivo que já escutei em outras oficinas com certa frequência por parte dos jovens – diante de alguns exercícios propostos.
Percebi, notavelmente, que algumas meninas se mostravam retraídas diante de uma atividade mais autoral, lúdica. Os meninos, em sua maioria, diante da dúvida traziam seus questionamentos.
As meninas pareciam, em sua maioria, preocupadas em “não fazer errado”: o cuidado com a caligrafia, o preciosismo. Parecia difícil para elas lidar com a possibilidade de uma escrita mais livre. Claro: a postura de algumas não permite generalizar este como um comportamento típico somente das meninas. No entanto, é algo que me chamou atenção.
Propus como alternativa o desenho e a pintura, caso alguém não se sentisse confortável em fazer alguma dinâmica escrita proposta para acessar seus sentimentos. Estas atividades envolviam, sobretudo, possibilidades de autopercepção a partir da escrita. Por exemplo, solicitei que as/os jovens escrevessem livremente suas próprias definições do que é amar, ser escutado, mudar…
A didática é algo desafiador. A posição da docência exige dinamismo e um (re)pensar constante de si e do outro. Complexo achar um tom que não faça com que os/as jovens se sintam incapazes; mas também eles parecem, por vezes, necessitar de orientação mais aprofundada – e repetida – para criar algo do zero.
Também é uma posição que exige um aprofundamento constante da empatia, ao mesmo tempo em que impõe enorme seriedade. Mesmo nos detalhes, na forma como as atividades são elucidadas e propostas há noções importantes sendo transmitidas acerca de olhares sobre a vida: a relevância do diálogo democrático nas atividades propostas em grupo para tomada de decisões, o respeito a tod@s colegas.
Neste lugar enquanto escritora assumindo uma postura docente, em dado momento concluo que é preciso aceitar que não existe perfeição. Seguir, seguir, seguir. Fazer e aperfeiçoar a partir do fazer.
Propus, a partir de exemplificações dos fluxos de consciência de Virginia também a atividade de escrita de uma carta. Uma carta a uma mulher que cada um deles admira. A ideia veio há um tempo atrás, a partir de diálogo com meu amigo João Gonçalves. Lembrei às/os jovens que, em cartas, costumamos endereçar, assinar a data. É o tipo de lembrança que, em geral, se guarda com carinho.
Ao fim das atividades com uma das turmas, uma jovem – Bianca – me entregou uma carta. Ela escrevera para mim. Fiquei fascinada pelo seu uso das palavras, pensei o quanto uma jovem adolescente carrega em termos de carga de sentimentos. O quanto a expressão é primordial e delicada.
O quanto, em uma era extremamente digital, é preciso oferecer aos jovens e às jovens a permissão e os instrumentos para que descubram e acolham sua caligrafia e para que entendam que, junto do conhecimento prático, a literatura pode oferecer um lugar também de amparo e refúgio. Acolhimento. É isto a que ela se propõe em sua mais elementar – e bela – função.
Deixo em registro agradecimento à Coordenadora Katia e Professora Ana Cláudia Gregorio, que me acolheram na escola, bem como uma nota de admiração pelo trabalho que realizam diariamente no cuidado com o futuro de cada uma e cada um destes jovens. Também à Secretaria de Cultura do município de Ivoti, gestão 2024, pelo apoio na implementação do Projeto.
Eu te perdoo. Por se desculpar demais e por não se desculpar às vezes.
Te perdoo pelas agressões, pelos limites que ultrapassei. Te perdoo pelas comparações, medos, excessos cometidos.
Por às vezes amar demais e às vezes silenciar o coração. ⠀⠀⠀ Te perdoo porque descobri que, assim como sempre perdoou aos outros, és capaz de estender esse amor também a ti. E porque és merecedora de tudo.
Não esquece, não: corpo, mente e consciência não precisam ser um campo de batalha.
(escrevi pra mim, mas dedico a todas as mulheres – 2020 foi ainda mais foda para nós. sejamos carinhosas conosco mesmas. 🤍)
Eu não costumava perceber. Eles simplesmente me escapavam. Falo daqueles pequenos intervalos da vida. A transição entre a alegria e a dor. O preenchimento e o vazio. Som e silêncio. Inspiração e expiração.
É que tudo pode simplesmente se misturar tão rápido. Até que fica veloz demais e você simplesmente se perde. De si mesmo(a), dos encontros, das belezas.
Agora, isolada, percebo mais claramente.
Um pôr do sol que não foi contemplado jamais retorna. Tenho observado a forma como ele se vai, em um estalar de dedos, de um instante para outro. O espetáculo é sempre singular, não se repete de forma igual em nenhum dia – ainda que o de hoje se pareça com o de ontem.
Tudo é sempre mutação. É por isso que tenho procurado captar os instantes. Quando estamos entre quatro paredes eles se tornam mais visíveis e preciosos.
A pausa no trabalho para ouvir uma música. Aquele tempinho de passar o café. Ler as páginas de um livro. Deixar o corpo inteiro no sol.
Efêmeros, preciosos lapsos de vida que antes não existiam. Ah, como é bom identificar as pausas. Voltei a percebê-las.
O Yoga aprofundou ainda mais minha compreensão de que há possibilidades para não sufocar, justamente no silêncio mental que atravessa o ato de inspirar e expirar. Esse pequeno, mas infinito instante que revela a essência de tudo.
Ali há um lugar de paz incomparável, em que nada do que é externo importa mais. Não existe a culpa pelo que fizemos ou deixamos de fazer; nem medo, ansiedade e insegurança.
Até mesmo a raiva dos opressores, as aversões e discordâncias desaparecem. Todas as ilusões da mente dualista se dissipam. Resta serenidade e tranquilidade.
Abrir espaço para o “prana” (a energia vital) circular livremente é a chance de encontrar um caminho para cessar, ainda que por um breve instante, o peso de viver em uma sociedade brasileira ainda marcada por injustiças, abusos, dores, desigualdades e, atualmente, genocídio de minorias. Quando a realidade pesa, a mente pesa.
E o único caminho de sanidade é respirar. A pausa da respiração é o verdadeiro elo entre corpo-mente.
“O que quer que aconteça na mente influencia a respiração; a respiração se torna mais rápida quando estamos agitados e mais profunda e calma quando relaxamos”, escreve T. K. V Desikachar em “O Coração do Yoga”, leitura que recomendo fortemente para quem busca se aprofundar mais nessa filosofia, como tenho feito.
Em outros termos, a respiração revela nosso estado de espírito. E, quando paramos para voluntariamente administrá-la, aí então podemos redirecionar a própria atividade da nossa mente. Centrá-la para dentro, para o que é quieto, sereno, pacífico.
De fato, repare: qual é a diferença entre um organismo vivo e outro morto? O ar que entra e sai dos pulmões. E tenho dito que é tempo de respirar. Profunda e calmamente. Em casa, de forma segura, se for possível para você. Não é hora de apressar a vida para que ela volte a correr.
No Brasil, a pandemia não acabou.
E uma vida sem pausas para respirar, antes e agora, continua sendo apenas uma forma de vida “zumbi”. Procure os espaços de clareza, de sentir o ar entrar e sair dos pulmões. Todas as respostas aparecem ali.
Sigo encontrando as minhas e espero, de coração, que você encontre as suas também.
Não me recordo exatamente quando foi que o Yoga me trouxe o insight que inspirou este texto. Mas sei que, naquele dia, algo na minha vida mudou radicalmente: ficou claro, bem diante dos meus olhos, um fato óbvio (que até então, de vez em quando, eu costumava ignorar): todos os seres humanos sofrem.
Todinhos, sem exceção. Eu, você que me lê. A blogueirinha que parece ter a vida perfeita no Instagram. O rico e o pobre. Qualquer pessoa no mundo já experimentou o sofrimento. Não por acaso, esta também é a primeira das nobres verdades expressas por Buda: a dor existe.
Também não por acaso, tanto pela sabedoria indiana, quanto pelo budismo, está dito que existe um caminho para atenuar essa dor. Mas será mesmo que é possível ter uma vida em que os altos não são tão altos e os baixos não são tão baixos? Uma vida em que, independente do que aconteça externamente – mesmo que se trate de uma pandemia mundial -, seja possível manter um pouquinho da serenidade interior?
Jamais teria a pretensão de dizer que tenho a resposta para todas essas questões. Mas, neste artigo, quero compartilhar um pouquinho da minha jornada diante de tais perguntas.
A vida perfeita é sempre uma criação ilusória
Por mais louco que possa soar, compreender que todos sofremos foi libertador para mim. Até então, eu realmente achava que algumas pessoas eram simplesmente mais afortunadas que outras. Diante de uma “vida perfeita” nas redes sociais, acreditava que certos sortudos “ganhavam na loteria da vida”, enquanto outros estavam destinados a sofrer.
Só que, quando comecei a me aprofundar nos estudos de Yoga – não somente focando na parte física, mas também em seus ensinamentos enquanto escola filosófica – constatei algo óbvio, mas tão facilmente ignorável: o simples fato de todos termos um corpo já é pré-requisito para sofrermos.
Acompanhe o raciocínio. Corpo é matéria. Matéria envelhece, se degrada facilmente. Ou seja: em algum momento de nossa existência, na infância, juventude ou velhice, o simples fato de estarmos dentro de um corpo capaz de se deteriorar já vai nos fazer sofrer. Ocorre que adoramos ignorar isso e fingir que estamos imunes, não é?
Aí está o ponto-chave. A ignorância da verdade desse sofrimento é o que leva a maioria das pessoas a buscarem distrações por meio de coisas materiais e prazeres externos, entrando em um infinito ciclo de dor versus prazer, mas que não traz nenhum tipo de satisfação plena. O medo continua ali, pois quando se ignora o sofrimento, ele logo reaparece na outra esquina.
Já reparou como algumas pessoas têm extrema dificuldade em lidar com a quarentena? Não conseguem ficar em casa, sempre inventam algo para fazer? Precisam de uma distração constante? Não conseguem lidar com o silêncio? É porque o silêncio exige respostas mais profundas sobre a nossa existência.
E, sim: é necessário coragem para encará-las.
O corpo como porta de entrada para Yoga
Vamos agora continuar por partes, então: se o corpo é a primeira causa mais óbvia do sofrimento humano, faz sentido começar um caminho de cura por meio dele também, não é? É aí que entram as posturas físicas que você já deve ter visto por aí, chamadas de asanas.
Uma maravilhosa reportagem na hoje já extinta Revista Yoga Journal, escrita por Leslie Peters (que foi diretor executivo do Instituto Iyengar Yoga de Los Angeles de 1993 a 2004), esclarece detalhadamente o porquê da jornada de libertação proposta pela filosofia do Yoga começar com práticas físicas.
Acontece que o corpo é nossa parte mais externa, densa, palpável. Somos capazes de tocá-lo. Ele é nosso veículo para atingir uma consciência mais presente – esta que não vai se abalar tanto diante de mil acontecimentos externos que ocorrem em nosso dia.
“A firmeza do corpo vem antes, porque nós começamos nossa jornada pela periferia – o que podemos ver, sentir, tocar. O corpo é o veículo do caminho do Yogi na libertação máxima. A menos que ganhemos domínio do corpo, não podemos esperar prestar atenção à alma”, escreve.
Em outras palavras, não conseguimos aquietar nossa mente usando a mente. Não somos capazes de encontrar um espaço de quietude interna e tranquilidade “pensando que não queremos ficar ansiosos”. Só podemos mudar nosso estado mental através do corpo. Mais precisamente, pelo movimento e pela respiração.
O verdadeiro caminho é procurar a essência
Conforme escrevi em uma postagem no meu Instagram no último domingo, quando foi comemorado o Dia Internacional do Yoga, a verdade é que viver Yoga é, sim, sobre fazer posturas físicas para buscar um espaço de tranquilidade interna. Mas a busca não termina aí.
Yoga é algo para a vida toda. Meditar e praticar fisicamente é uma partezinha do que seus ensinamentos propõem. Até mesmo o estudo das escrituras faz parte dela.
Aliás, uma das melhores decisões que tomei na quarentena foi iniciar um Curso sobre os Yoga Sutras de Patañjali, ministrado pela maravilhosa professora Maria Nazaré Cavalcanti.
Nele, já pude compreender ainda melhor que Yoga é, na verdade, uma das seis escolas de conhecimento dos Vedas. Eles são alguns dos textos mais antigos escritos pela humanidade, datados de cerca de 5.000 anos e originalmente colocados em sânscrito – um idioma muito característico por sua construção sofisticada -, de modo que cada estrutura de uma palavra abre margem para uma interpretação profunda de seu real valor.
Ou seja: Yoga diz respeito a uma apropriação de ensinamentos escritos, códigos de conduta (como dizer a verdade, não acumular demais, buscar o desapego, não roubar o que é do outro) e práticas físicas para a vida, visando essa libertação do sofrimento. Não se trata de uma religião moralista, mas de uma bússola norteadora.
Hoje, entendo que é preciso viver Yoga, não apenas praticar Yoga. É quando a gente realmente se apropria dos ensinamentos e mantém a constância de uma prática diária que a diferença começa a acontecer. Ela inicia pequenininha, mas vai se tornando cada vez mais transformadora à medida em que se amplia.
Por isso, se você tem experimentado muita ansiedade neste período de tantas incertezas, quero finalizar reforçando:
Por mais que pareça, você não está sozinho(a). Todos sofremos. Você nunca sofre sozinho(a).
Se você não tem nenhum conhecimento sobre Yoga para fazer práticas físicas agora, procure ao menos ler sobre o assunto. Veja perfis na internet, reportagens e materiais que transmitam ensinamentos válidos e lhe inspirem confiança.
A nossa mente oscila demais todos os dias. Buscar uma prática de Yoga, mesmo quando a quarentena acabar, com a ajuda de um professor ou professora, pode ser um caminho realmente capaz de transformar sua vida.
Decidir. Eis uma imposição que a vida sempre nos apresenta. Cada um de nós, todos os dias, se percebe diante da necessidade de tomar decisões – algumas de maior importância, outras nem tanto. No contexto do trabalho remoto, porém, a percepção acerca da relevância de fazermos escolhas inteligentes se acentua ainda mais.
De certa forma, foi isso que percebi no decorrer da minha jornada de quase um ano e meio trabalhando exclusivamente como produtora de conteúdo freelancer. Ocorre que, quando nossa casa também se torna nosso escritório, é inevitável que a vida profissional se misture um pouco mais com a vida pessoal.
Em outras palavras, torna-se mais fácil identificar que suas decisões profissionais terão um impacto muito forte na qualidade do seu dia como um todo, bem como na sua própria sanidade mental. Especialmente agora, em um período de tantas incertezas.
Topa aprofundar um pouco mais a reflexão?
Não meça o valor do seu trabalho apenas pelo dinheiro, mas pelo impacto em sua saúde
Se você trabalha como freelancer, provavelmente se depara diariamente com questionamentos do tipo “será que estou precificando bem o meu trabalho?”, ou “será que eu deveria trabalhar mais, ou menos?”. Sei bem como é. Desde que optei por esse modelo de trabalho, essas são questões constantes em minha vida.
Mas vejo que até mesmo quem ainda está no modelo CLT, neste momento de home office, pode encontrar certos dilemas na rotina diária. “Será que devo fazer uma pausa no trabalho agora?”, “reservo um tempinho para me exercitar, ou dou conta de toda essa demanda de uma vez?”
Em ambos os contextos, são questões que nos levam a tomar decisões. Estas, nem sempre fáceis. Por isso, penso ser este momento de pandemia o timing perfeito para observarmos mais atentamente a forma como trabalhamos, nosso nível de exigência e cobrança interna.
Principalmente porque, trabalhando em casa, qualquer tendência workaholic fica mais evidente. Você pode se perceber pulando uma refeição, trabalhando até muito tarde, ou observando seus níveis de ansiedade chegarem às alturas.
No trabalho remoto, sentimo-nos mais livres, por um lado. Mas é preciso cuidado, uma vez que a sociedade de desempenho embutiu em nosso inconsciente a ideia de que para sermos “vencedores” precisamos trabalhar incansavelmente, sem nenhum descanso. Até atingirmos a ideia de um certo “eu-ideal-bem-sucedido” completamente ilusório.
“Frente ao eu-ideal, o eu real aparece como fracassado. O eu trava uma guerra consigo mesmo. Nessa guerra não pode haver nenhum vencedor, pois a vitória acaba com a morte do vencedor. O sujeito do desempenho se destrói na vitória. (…) É assim que doenças psíquicas como burnout ou depressão, enfermidades centrais do século 21, apresentam todas elas um traço altamente agressivo a si mesmo. A gente faz violência a si mesmo e explora a si mesmo. Em lugar na violência causada por um fator externo, entra a violência autogerada, que é ainda mais fatal, pois a vítima acredita ser alguém livre”.
Passei por várias fases desses processos mencionados por ele – e até hoje ainda caio em armadilhas de vez em quando. Mas é justamente por isso que, atualmente, antes de abraçar um trabalho ou projeto, não penso apenas na precificação em termos de execução. Avalio o custo emocional que haverá para mim em atender tal demanda.
Às vezes, não há preço que pague.
Em tempos de Coronavírus, nenhum trabalho vale a sua saúde física e emocional
Diante de todo o contexto que acabei de mencionar, confesso que me espanta também a forma como algumas pessoas estão simplesmente “vivendo a vida normal” no meio de uma pandemia mundial. Na esfera digital, principalmente, observei que há até mesmo um certo aumento de demanda e aceleração de processos.
Claro que aqui falo somente por mim, do meu ponto de vista. Mas acho válido compartilhar que, nas últimas semanas, cheguei a recusar trabalhos justamente pelo custo emocional que teria ao assumir novos projetos em meio a um contexto de caos social. Para você, talvez pareça loucura ir na contramão e decidir trabalhar menos em um cenário econômico delicado.
Porém, hoje compreendo que o preço da minha ansiedade, somada à ansiedade externa do mundo, seria elevado demais. Não há como precificar minha saúde mental neste momento. Aliás, aproveito aqui o gancho para compartilhar novamente algo bem pessoal.
Tive um caso de Coronavírus dentro da minha família. Sabe quando as estatísticas ganham contornos físicos reais? Pois é. Meus familiares se recuperaram, mas um amigo que havia viajado com eles faleceu, infelizmente. A proximidade dos acontecimentos, assim, torna toda a questão ainda mais tangível para mim.
Mais uma vez, a vida me escancarou: a morte é a única certeza que temos. Foi por esse motivo que tomei ainda outra decisão ousada: abandonar alguns projetos pelos quais tinha enorme carinho, simplesmente para ficar mais offline, trabalhar no livro que quero lançar, ter mais tempo dedicado a mim mesma.
Pretendo fazer uma espécie de quarentena sabática. Como minimalista que sou, vivendo com menos, gastando muito menos e, por consequência, trabalhando menos. Porque é fato: as pessoas estão morrendo. O mundo que eu conhecia até então mudou. E preciso de tempo para respirar e focar na minha saúde.
Essa é a minha decisão agora. Sei que cada um tem a sua história. Mas sinto que, de alguma forma, preciso externalizar este sentimento: lembre-se, por favor, de que neste momento da história a sua saúde é mais importante que qualquer dinheiro, trabalho, ou qualquer outra demanda que aparente ser prioritária.
Cuide-se. Pegue sol em casa, se possível. Respire, medite. Ouça música. Evite a tendência de se esconder da realidade e do Coronavírus afundando em mais trabalho. Permita-se desligar e ame-se mais.
Como disse o filósofo Clóvis de Barros Filho: a vida hoje vale mais.
Era meados de outubro ou novembro de 2019. Acho que um domingo. Eu e minha mãe saímos para um café e, em uma dessas coincidências gostosas da vida, encontramos a professora e instrutora de Yoga Maria Nazaré Cavalcanti. Ela é uma daquelas pessoas brilhantes que a gente poderia ouvir por horas e horas, sabe?
Pois bem, naquele dia ensolarado, a Nazaré aceitou o convite de sentar-se conosco. Papo vai, papo vem. Falamos de política e desigualdade social. Me lembro bem que ela comentou sobre algumas teorias que já estavam rolando, sobre o capitalismo extremo estar chegando ao seu limite, prestes a ruir.
O 11 de setembro teria sido o strike one. Não por acaso, tenho lembrado muito dessa conversa nos últimos dias. Acho que a pandemia global equivale aos strikes dois e três juntos, né? A loucura do consumismo está ruindo bem diante de nossos olhos.
Se você não concorda com essa visão, tudo bem. Sei que muita gente crê simplesmente que “vivemos uma crise”. Mas peço licença para discordar e ir além. Creio fortemente que estamos diante da oportunidade/necessidade de construir um novo modelo social, mais humano e igualitário.
Topa aprofundar?
Usamos máscaras nas ruas, mas as verdadeiras máscaras agora caem
Algo que está evidente nesses tempos de pandemia é a desigualdade social e tecnológica que tanto nos esforçamos para ignorar. E que, não por acaso, se tornou justamente a maior problemática em nosso modelo econômico.
Enquanto alguns privilegiados podem exercer o trabalho remoto, falar com seus amigos pelo celular, se alimentar bem e “seguir a vida”, de certa forma (me incluo nesta categoria, aliás), outras pessoas enfrentam um temor cada vez maior da fome, do desemprego e da morte. Está na cara que a balança está desequilibrada.
Na filosofia da Yoga, um dos preceitos éticos que buscamos seguir na vida é o de Aparigraha que, conforme explica o professor Pedro Kupfer em coluna da hoje já extinta revista Yoga Journal, significa contentar-se com o necessário.
“O Yogi não tem interesse em acumular objetos inúteis, pelo mesmo motivo que as águias voam carregando apenas o indispensável para ficarem leves”.
Compreendo esse conceito no sentido da ideia de “não-ganância”, de não acumularmos em excesso. Por quê? Porque, pela lei do equilíbrio, sempre que eu acumulo demais (dinheiro, comida, posses, etc), significa que este meu excesso será a falta de outra pessoa.
Percebe como é ridículo, na falta de uma palavra melhor, o fato de que para algumas pessoas a maior preocupação na quarentena seja comer demais porque estão entediadas em casa, enquanto para outras é simplesmente ter o que comer e sobreviver?
Isso é sintoma do desequilíbrio na balança social. E esse é meu gancho para falar de minimalismo criativo em tempos de pandemia.
Minimalismo e criatividade no contexto do isolamento social
O minimalismo, conforme já expliquei em outros artigos, diz respeito a uma filosofia de vida que prioriza termos menos coisas, valorizando mais a qualidade destas, e empregando nosso tempo a favor daquilo que realmente nos é precioso na vida. Creio, cada vez mais, que a aplicabilidade desses conceitos nunca foi tão urgente.
Em minha visão, sim: ser minimalista é entrar em sintonia com a mentalidade de uma nova Era. De mais igualdade, amor, cooperação e criatividade. Para aproximar essa ideia um pouco mais da realidade, vou trazer alguns exemplos.
Mesmo eu, que já me considero minimalista, estou percebendo na quarentena diversas novas possibilidades de aprofundar a filosofia na prática. A título de ilustração: diante da dificuldade/cautela necessárias para ir ao supermercado, tenho literalmente usado todos os ingredientes da cozinha até o fim.
Resultado? Estou pesquisando e criando diversas novas receitas super criativas e gostosas. Entendo, também, que o fato de os alimentos naturalmente aumentarem de preço durante a crise é uma oportunidade de pensar cada vez mais sobreo que estou comendo, a quantidade de comida essencial ao corpo, em me nutrir com o essencial apenas.
Percebi na cozinha algo que já havia constatado quando me tornei minimalista com roupas. Quanto menos peças temos, mais criativos ficamos na forma de explorá-las. A escassez nos obriga a pensar melhor sobre como utilizar nossos recursos com inteligência.
Então, ao invés de deixar ela lhe apavorar, por que não usá-la para aflorar seu lado mais criativo?
Esta é a sua oportunidade de aprender a viver com menos
Talvez você, ao ler este texto, conclua que sou uma pessoa exageradamente otimista. E, se for o caso, tudo bem. Dia desses, li uma frase do Oscar Wilde, que dizia assim:
“O pessimista é aquele que reclama do barulho quando a oportunidade bate à porta”.
Sei que esta pandemia é mais que um barulho. É um estrondo. Mas que ele possa, então, nos estremecer a ponto de incentivar todas essas mudanças que a Natureza já declarou: são inadiáveis.
Concorda comigo? Você já leva ou está tentando levar uma vida mais minimalista? A quarentena também aflorou sua criatividade? Me conta aqui nos comentários que eu vou amar saber. <3